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Marcas & negócios

Por que as lojas de R$10 estão crescendo no Brasil?

Preço baixo, descoberta e escala: uma análise sobre o crescimento das lojas de R$10 e o modelo que combina margem, giro e variedade.

Fachada rosa da Tudo a 10 Makeup em São Paulo, com letras brancas anunciando o preço de R$10.
Fonte: Tudoa10Makeup São Paulo SP

Por que estamos vendo uma loja de R$10 em cada esquina?

O cenário tem sido desafiador pro varejo tradicional. Não exatamente porque o varejo esteja diminuindo: segundo o IBGE, o volume de vendas do comércio varejista cresceu 1,6% em 2025, completando o nono ano consecutivo de alta no Brasil.

Mas existe uma disputa cada vez maior pelo bolso do consumidor.

E, nesse cenário, se observa o crescimento de um formato que chama bastante atenção: as lojas de preço único, ou pelo menos de preço baixo.

Já tem grandes nomes no segmento, como Multi10, Prioridade 10 e Pérolas Make, além de todas as lojas desse tipo no centro da tua cidade que provavelmente não estavam lá cinco anos atrás.

E tem um ponto importante aqui: parte dessa expansão recente tem relação com a profissionalização desse modelo.

A velha loja popular virou um negócio replicável

A Multi10, por exemplo, foi fundada em 2009, mas começou a operar como franquia em 2022, segundo os dados fornecidos pela própria empresa ao Portal do Franchising.

Isso acontece junto de uma expansão muito maior do franchising no Brasil.

A Associação Brasileira de Franchising mostra que o faturamento do setor cresceu 13,5% em 2024, chegando a R$ 273 bilhões. Em 2025, cresceu mais 10,5% e ultrapassou os R$ 300 bilhões.

E tem outro dado que ajuda bastante a entender por que essas lojas começaram a aparecer em tantos lugares: as franquias estavam presentes em 69% dos municípios brasileiros em 2025, contra 61% no ano anterior.

Ou seja, aquele modelo de loja popular que dependia muito da experiência de um comerciante local passou a poder ser replicado, com fornecedores, mix e operação estruturados por uma rede.

Mas só isso explica como as lojas conseguem se espalhar.

Não explica por que o consumidor compra.

Por que as lojas de R$10 atraem tanto consumidor?

Primeiro, preço.

Eu tinha relacionado inicialmente esse fenômeno à perda de poder aquisitivo desde 2020. Mas essa explicação, sozinha, não se sustentou.

A renda se recuperou nos últimos anos. Segundo o IBGE, o rendimento domiciliar per capita nominal chegou a R$ 2.316 em 2025.

Então não é simplesmente porque hoje temos menos dinheiro.

O que tivemos nos últimos anos foi uma sequência de choques de preços e de custo de vida que reforçou a busca por valor. E essas lojas deixam essa proposta muito clara: você entra sabendo que vai encontrar uma enorme quantidade de produtos dentro de uma faixa considerada barata.

Segundo, apesar de querermos economizar, a nossa vontade de comprar continua existindo.

Comprar também pode ser uma forma de entretenimento, de se auto recompensar, de se desestressar. Porque, olha, a gente anda tendo muitos motivos pra se estressar ultimamente...

E esse tipo de loja é praticamente feito para estimular a descoberta.

Você entra procurando uma coisa e começa a andar pelos corredores encontrando os mais variados produtos.

Terceiro, sim, existe o digital, que pode ser até mais barato.

Shopee, Mercado Livre e outros marketplaces oferecem muitos dos mesmos produtos. Mas a experiência é diferente.

Nada substitui exatamente entrar na loja, andar pelos corredores e encontrar produtos que você nem estava procurando.

É, como dizem os gurus por aí, uma legítima experiência.

Entrada de uma loja Tudo a 10 Makeup em São Paulo, com fachada rosa e prateleiras de cosméticos.
Fonte: Tudoa10Makeup São Paulo SP

Como uma loja de R$10 consegue ganhar dinheiro?

A grande questão que fica: como esse tipo de loja sobrevive e, ainda por cima, dá dinheiro quando tudo é tão barato?

É aqui que o modelo fica mais interessante.

Na Prioridade 10, 65% do investimento inicial de uma franquia é destinado ao estoque. Segundo a própria rede, uma unidade trabalha com um mix de cerca de 10 mil produtos diferentes e tem projeção média de venda de 19 mil itens por mês.

Ou seja, eles precisam girar produto.

Muito produto.

O negócio depende de giro, reposição rápida, gestão de mix e capacidade de comprar bem.

E a escala ajuda nessa conta.

A Multi10 informa que oferece aos seus franqueados acesso a mais de mil fornecedores, sendo mais de 200 exclusivos.

Quanto maior a rede e o volume comprado, maior a capacidade de encontrar produtos competitivos e negociar custos.

Nem todo produto precisa cumprir a mesma função

Alguns produtos podem ter uma margem maior. Outros podem girar muito. Outros ajudam a manter a percepção de preço baixo ou a trazer o consumidor para dentro da loja.

Inclusive, a Prioridade 10 divulga uma margem bruta mensal de até 48,67%.

Margem bruta, não margem líquida.

Então não dá para dizer que esse modelo necessariamente trabalha com margens minúsculas.

O que dá para dizer é que ele depende muito da combinação entre margem, giro e mix.

E tem outro detalhe interessante: nem todas essas lojas continuam literalmente presas aos R$10.

A Multi10 hoje trabalha com preços únicos de R$10 e R$20.

Isso mostra que o principal atrativo talvez nem seja o número específico da placa, mas a percepção de que praticamente tudo ali é barato.

Então, por que estamos vendo tantas lojas de R$10?

No geral, esse modelo juntou algumas coisas bastante específicas: consumidores procurando preço e valor, compra como experiência, enorme variedade e uma cadeia de fornecedores capaz de abastecer milhares de produtos baratos.

Mas tem uma mudança estrutural importante por trás disso.

É a velha lógica da loja popular, agora com escala, franquia, gestão de estoque e capilaridade.

O que antes dependia quase exclusivamente de um comerciante local saber onde comprar, o que comprar e por quanto comprar passou a poder ser estruturado e replicado por uma rede.

Tudo em uma operação que precisa ser muito bem gerenciada, mas que encontrou um espaço bastante interessante no varejo brasileiro.

Que atire a primeira pedra quem nunca foi numa loja de R$10 para procurar um item e saiu com múltiplas e não planejadas sacolas de compras.

Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FRANCHISING (ABF). Mercado de franquias supera projeção e fatura R$ 273 bilhões em 2024, diz ABF. 2025.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FRANCHISING (ABF). Mercado de franquias supera os R$ 300 bilhões em 2025 e impulsiona o crescimento da economia brasileira. 2026.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FRANCHISING (ABF). Lideranças da ABF elencam 24 tendências do franchising em 2026. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Vendas no varejo fecham 2025 com alta de 1,6%. Agência de Notícias IBGE, 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). IBGE divulga rendimento domiciliar per capita 2025 para Brasil e unidades da federação. Agência de Notícias IBGE, 2026.

MULTI10 FRANQUEADORA. Franquia Multi10. Informações sobre preços, fornecedores e modelo de operação.

PRIORIDADE 10. Seja um franqueado. Informações sobre investimento, estoque, mix, projeção de vendas e margem bruta.